Com prefácio de Ignácio de Loyola Brandão, publicação reúne profissionais de diferentes gerações e propõe uma reflexão sobre a permanência de ofícios em tempos de inteligência artificial e automação
São Paulo, outubro de 2026 – O que há em comum entre um afiador de facas que realiza um trabalho que uma grande fábrica ainda não conseguiu automatizar, um soldador que mergulha a dezenas de metros de profundidade para reparar estruturas submarinas e um cerzidor de 94 anos capaz de recuperar tecidos valiosos quase sem deixar vestígios? Todos estão entre os 145 profissionais retratados pelo fotógrafo paulistano Jairo Goldflus em OFÍCIO, seu quinto livro, resultado de dois anos de trabalho e de uma investigação sobre profissões, técnicas e saberes que permanecem vivos, embora muitos deles estejam cada vez menos presentes no cotidiano das cidades. A obra estará disponível em tiragem limitada a partir de 03 de novembro, pelo site oficial do fotógrafo.
Com mais de 40 anos de carreira, Goldflus percorreu oficinas, ateliês, pequenos estabelecimentos comerciais e outros espaços de trabalho durante 15 meses para registrar homens e mulheres que dedicam suas vidas ao domínio de atividades manuais. A publicação independente, que conta com prefácio do escritor Ignácio de Loyola Brandão, reúne retratos realizados nos ambientes de trabalho reais dos profissionais.
A ideia surgiu de uma percepção pessoal. Ao caminhar pelo bairro onde mora atualmente, o fotógrafo começou a sentir falta de figuras que fizeram parte de sua infância no Bom Retiro, região central de São Paulo. No caminho de cinco quadras até a escola, conhecia pelo nome o sapateiro, a cabeleireira, o padeiro e outros trabalhadores que ocupavam as ruas e os pequenos comércios da vizinhança. Décadas depois, percebeu que esses profissionais haviam desaparecido de seu campo de visão, embora seus serviços continuassem necessários.
O primeiro retratado foi Baltazar, relojoeiro estabelecido na Bela Vista. A experiência ajudou a definir a linguagem visual do projeto: mais do que registrar os rostos, Jairo queria mostrar os profissionais cercados pelas ferramentas, objetos, materiais e espaços que fazem parte de suas rotinas. A partir daí, iniciou uma busca que combinou pesquisas na internet, indicações e conversas com pessoas de diferentes áreas. Um profissional apresentava outro, ampliando progressivamente o universo do livro.
O olhar por trás das fotografias
Para preservar a autenticidade dos encontros, Goldflus optou por fotografar cada personagem em seu próprio ambiente de trabalho, sem produzir cenários ou modificar os espaços. Embora parte significativa de sua trajetória seja marcada por imagens em preto e branco, para OFÍCIO escolheu a fotografia colorida. A decisão reforça o propósito de registrar a realidade cotidiana dessas pessoas, incluindo as cores das ferramentas, dos materiais e dos lugares onde exercem seus ofícios.
O equipamento foi reduzido ao essencial: uma câmera e uma pequena fonte de luz, utilizada para equilibrar as diferentes condições de iluminação encontradas em cada visita. “Tenho a minha pequena luz que levo, que não é invasiva, e com a qual consigo compensar qualquer tipo de iluminação. […] Deixo a luz quente ou fria conforme o que encontro, para ficar homogênea”, explica o fotógrafo.
A experiência acumulada ao longo de quatro décadas também se reflete na agilidade dos registros. Em geral, Jairo realizava apenas três ou quatro cliques de cada trabalhador, priorizando a conversa e a construção de uma relação de confiança. Para ele, a capacidade de reconhecer o momento certo de fotografar é resultado de anos de prática, uma característica que também identifica nos trabalhadores retratados. “Sou um pouco como eles. Trabalho há 40 anos e dediquei a minha vida a isto porque gosto”, afirma.
O projeto também propõe uma reflexão sobre a continuidade desses conhecimentos. Segundo Goldflus, muitos dos profissionais fotografados seguem com grande demanda por seus serviços, mas encontram dificuldades para transmitir suas técnicas às novas gerações. O desafio, portanto, não está necessariamente na falta de procura, mas na escassez de aprendizes dispostos a dedicar anos ao domínio de uma atividade manual.
Essa preocupação se reflete na própria concepção do livro, que reúne as fotografias sem textos individuais sobre os personagens. A decisão foi tomada para preservar a intimidade dos encontros e permitir que as imagens contem suas próprias histórias. O prefácio de Ignácio de Loyola Brandão oferece uma contextualização para o conjunto, sem interferir na autonomia dos retratos.
Histórias de quem domina o próprio ofício
Entre os personagens de OFÍCIO está Ramon, afiador estabelecido no Pari, bairro da capital paulista. Procurado por chefs de cozinha que confiam a ele suas facas, o profissional também realiza uma tarefa singular para uma marca fabricante de tesouras. Há cerca de quatro décadas, criou um gabarito capaz de produzir a curvatura específica exigida por tesouras utilizadas por tapeceiros. Segundo Jairo, a empresa ainda não encontrou uma solução industrial que substitua o procedimento e envia aproximadamente 300 peças por mês para que Ramon faça o ajuste manualmente.
A história sintetiza uma das principais reflexões do livro: mesmo diante dos avanços tecnológicos, determinados conhecimentos continuam dependendo da experiência acumulada por uma pessoa ao longo de décadas.
Outro personagem é Fernando, soldador que atua na manutenção de estruturas submarinas. Em terra firme, realiza serviços em peças de motos e automóveis. Sua especialidade, porém, o leva a trabalhar em grandes profundidades, reparando tubulações em operações que exigem treinamento rigoroso, resistência física e longos períodos de preparação e descompressão. Jairo conheceu a história ao visitar sua oficina e descobrir que o trabalho cotidiano do profissional escondia uma atividade muito mais complexa.
A habilidade manual também se revela no trabalho de Mauro, cerzidor de 94 anos, que atua em uma pequena sala de uma galeria na Rua Augusta, em São Paulo. Cercado por roupas e tecidos, ele reconstrói manualmente os fios de peças danificadas, tornando os reparos praticamente imperceptíveis. Entre seus clientes estão lojas e marcas que encaminham roupas confeccionadas com materiais nobres. Há mais de seis décadas dedicado à atividade, Mauro impressionou o fotógrafo não apenas pela precisão técnica, mas também pela personalidade: ao assinar a autorização para ser fotografado, fez questão de registrar o documento com o celular.
No Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, Ivan, luthier há mais de 30 anos, trabalha na manutenção e construção de instrumentos de corda. Responsável por cuidar de violinos e violoncelos utilizados por músicos de destaque, incluindo integrantes da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, ele apresentou a Jairo a complexidade da escolha das madeiras, dos componentes e das técnicas que determinam a sonoridade de cada instrumento. Curiosamente, apesar do conhecimento profundo sobre sua construção, Ivan não toca os instrumentos que restaura.
Paulo César, taxidermista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), começou sua trajetória profissional como faxineiro da instituição. Durante o expediente, despertou sua curiosidade uma sala dedicada à taxidermia, técnica de preservação de animais para fins científicos e educativos. Quando encontrou a porta aberta, pediu autorização para acompanhar o trabalho do especialista responsável pelo laboratório e passou a dedicar seus horários de almoço à observação da atividade. Após a aposentadoria daquele profissional, encontrou em seu sucessor a oportunidade de aprender o ofício. Décadas depois, tornou-se uma referência na área, atuando na preparação e conservação de espécimes utilizados em pesquisas e estudos científicos.
Memória afetiva, reinvenção e reconhecimento internacional
Alguns dos encontros revelaram histórias diretamente ligadas à memória e às relações pessoais do fotógrafo. É o caso de Gil, chapeiro de uma padaria de bairro, que trabalha há cerca de 40 anos no mesmo estabelecimento, mesmo depois de uma mudança de endereço. Gil atendia o pai de Jairo e continua sendo uma espécie de guardião das histórias da vizinhança. Conhece os clientes, lembra seus pedidos e prepara os lanches com a precisão de quem repetiu os mesmos movimentos milhares de vezes.
Já Gilberto, conhecido como Gilpeto, transformou o personagem Pinóquio em sua especialidade. Desde a década de 1970, produz bonecos em diferentes versões, incluindo interpretações temáticas e bem-humoradas do personagem. Em seu ateliê na Vila Madalena, contou ao fotógrafo que chegou a encomendar 50 mil narizes de borracha para aperfeiçoar a produção, estoque que, depois de tantos anos, já estava próximo do fim. Seus trabalhos também foram apresentados em uma exposição no Farol Santander São Paulo.
Entre as mulheres retratadas está Cleide, artesã especializada no trançado de taboa, fibra vegetal utilizada na produção de peças artesanais. Antes de se dedicar ao ofício, ela trabalhava como enfermeira. Foi o marido, também artesão, quem lhe transmitiu os conhecimentos e as técnicas do trabalho quando estava gravemente doente. Após a morte dele, Cleide decidiu dar continuidade à atividade, transformando o aprendizado em profissão e preservando um saber compartilhado dentro de casa.
O trabalho ultrapassou fronteiras: três peças produzidas por Cleide chegaram a um museu de artesanato em Florença, na Itália. Além do reconhecimento internacional, ela atua na defesa e valorização dos profissionais do artesanato paulista, como presidente da Associação dos Artesãos do Estado de São Paulo.
Outra personagem é Caliu, encadernadora e restauradora de livros, que mantém vivo o legado do pai em um estabelecimento no centro de São Paulo. Localizado em um andar inteiro de um edifício próximo à Rua Sete de Abril, o espaço reúne livros antigos, ferramentas e equipamentos utilizados há décadas, compondo um ambiente que parece ter permanecido praticamente intocado pelo tempo.
Foi ali que seu pai desenvolveu o trabalho de comercialização e restauração de obras, atividade à qual ela dá continuidade utilizando, inclusive, os mesmos instrumentos. Em um mercado com poucos profissionais especializados, Caliu mantém uma demanda constante por restaurações, trabalho que permitiu a continuidade do negócio até mesmo durante a pandemia.
A reinvenção de materiais descartados aparece na história de Claudinei, artesão de Jundiaí, que trabalhava com a comercialização de madeira quando uma visita a uma área de extração florestal transformou sua relação com a profissão. Impactado pela derrubada de árvores e seus efeitos sobre os animais, decidiu abandonar aquela atividade e passou a produzir esculturas e objetos a partir de garrafas PET recicladas, com acabamentos que lembram metais.
Em Embu das Artes, Clóvis, artesão com mais de 70 anos, mantém uma oficina dedicada à produção de artigos de couro. Ex-hippie, percorreu países da América Latina confeccionando e vendendo bolsas para financiar suas viagens. Hoje realiza sozinho todas as etapas do trabalho, do tingimento ao acabamento, e comercializa suas criações na feira da Praça Benedito Calixto.
Sobre Jairo Goldflus
58 anos, nascido em São Paulo, Brasil, Jairo Goldflus é um renomado fotógrafo formado em Comunicação Social. Com quase quatro décadas de experiência profissional desde 1986, consolidou-se como uma referência na fotografia brasileira, reconhecido pela maestria na direção de pessoas e pelo primor técnico.
A paixão de Jairo pela fotografia começou aos 15 anos, quando ganhou uma câmera Nikon FE de sua irmã, levando-o a documentar shows icônicos entre 1987 e 1989, de artistas como David Bowie e Siouxsie and the Banshees. Essa imersão em ambientes dinâmicos moldou sua habilidade de capturar momentos humanos autênticos. Ao migrar para o mercado editorial, colaborou com os principais veículos impressos do Brasil, como a revista ELLE, e construiu uma sólida reputação em campanhas publicitárias de grande porte para marcas como Unilever e Coca-Cola. Sua abordagem psicológica no retrato, dedicando horas para criar conexão com os retratados e capturar sua essência em minutos, o diferencia como um mestre na direção de atores, músicos, modelos e pessoas comuns.
O trabalho de Goldflus é marcado pela busca incansável pela excelência técnica e pela profundidade emocional. Inspirado por mestres como Henri Cartier-Bresson e Richard Avedon, ele acredita que “um bom retrato reside em entrar na essência do retratado, atravessando a superfície para alcançar seu interior”. Essa filosofia torna suas imagens não apenas visualmente impactantes, mas também documentos culturais de relevância contemporânea.
Seus livros refletem essa visão. Em 2012, Público (Editora Livre) apresentou 142 retratos de figuras como Chico Buarque, Fernanda Montenegro e Cauã Reymond, combinando minimalismo em preto e branco com composições teatrais. Em 2015, Privado explorou a vulnerabilidade e a força da forma nua, com 60 modelos em imagens monocromáticas sem filtros, elogiadas pelo apuro técnico. Após um período de estudos em Nova York, Jairo lançou You Are Not Here (2017), um projeto documental com 456 retratos espontâneos de passageiros do metrô nova-iorquino, capturados com um iPhone 6 sem manipulação digital, o trabalho oferece um estudo antropológico da vida urbana. Em 2022, Singular desafiou padrões de beleza ao retratar 130 mulheres, incluindo Ana Paula Arósio, Fernanda Lima e Maria Fernanda Cândido, sem maquiagem ou retoques digitais, em um manifesto pela beleza natural em tempos de imagens filtradas.
Além dos livros, Jairo contribuiu significativamente para a fotografia teatral brasileira, com retratos precisos em estúdio para programas, cartazes e acervos culturais. Sua exposição São Paulo Fora do Tempo (2019), no Itaú Cultural, marcou uma transição para projetos multidisciplinares, integrando imagens e textos em narrativas documentais. Em 2022, a exposição Jairo e João: O Teatro na Fotografia, no Instituto Artium, reforçou sua influência nas artes.
Atualmente, Jairo dedica-se a projetos pessoais e autorais, como Ofício, que mantém sua tradição de narrativas imagéticas provocadoras. Com uma carreira que abrange fotografia editorial, e artística, Jairo Goldflus, desafiando convenções e inspirando por meio de sua lente.
Como adquirir OFÍCIO
O livro OFÍCIO, de Jairo Goldflus, estará disponível para compra pelo site oficial do fotógrafo.
Acesse: https://jairo.com.br/
Valor: R$ 250,00 (tiragem limitada)
Marra Comunicação – Assessoria de Imprensa Jairo Goldflus
Paulo Marra – paulo@paulomarra.com.br | (11) 99255-3149
Vinícius Oliveira – vinicius@paulomarra.com.br | (11) 95946-2063
Gabriel Lucena – gabriel@paulomarra.com.br | (11) 98513-3022
